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21 de Outubro de 2019

Luiz Gonzaga Pinto da Gama

Ideias e legado do líder abolicionista

Vanessa Oliveira, Marceneiro
Publicado por Vanessa Oliveira
há 4 anos

História de Luiz Gama

Sua mãe era negra livre e seu pai era branco, e mesmo assim viveu como escravo quando atingiu seus 10 anos de idade, após seu pai o vender para pagar uma dívida, foi alfabetizar-se somente após os 17 anos de idade, e conquistou judicialmente sua própria liberdade. Em 1850, tentou frequentar o curso de Direito na Faculdade do Largo do São Francisco, porém foi impedido por ser negro, ele continuou a frequentar as aulas, somente como ouvinte, e com o conhecimento adquirido, passou a atuar como rábula em favor daqueles que não possuíam condições de arcar com um advogado e estavam mantidos em cativeiro, os negros que ainda eram escravos.

Aos 29 anos Luiz Gama já era um autor consagrado como o “maior abolicionista do Brasil” (Antônio Loureiro de Souza. Bahianos Ilustres: 1564 – 1925. Salvador: [s. N. 1959. P. 102.)

A vida de Luiz foi sem dúvida impar, apesar de todas as dificuldades da época, de ter sido escravo, conseguiu estudar, foi impedido de se formar em Direito, porém mesmo assim conseguiu exercer a profissão, mesmo que sem reconhecimento, e ajudar a muitas pessoas a terem uma vida melhor. Intelectual negro, escravocrata no século XIX, autodidata e defensor da liberdade e da república, opositor da monarquia, Luiz Gama nos deixou um legado impecável e que deve ser lembrado, comemorado e seguido.

O reconhecimento

No aniversário de 133 anos de sua morte, Luiz Gama foi reconhecido pela OAB federal como advogado, “Há 133 anos, faleceu Luiz Gama e, após esse período, temos a oportunidade de reescrever a história. Ao apóstolo negro da Abolição, pelos seus relevantes serviços prestados junto aos tribunais na libertação dos escravos, a OAB Nacional e a OAB de São Paulo concedem [a Luiz Gama] o título de advogado” (Frase dita pelo presidente da OAB, Marcus Vinicius Furtado Coelho, em cerimônia na Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo, dia 03/11/2015).

Durante a homenagem que a Faculdade de Direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie realizou, inúmeros discursos que somente agregaram agradecimento a tudo que Luiz Gama fez pela nossa história foram proferidos, um deles foi do professor Silvio Luiz de Almeida, que também é presidente do instituto que leva o nome do homenageado, em que disse “Luiz Gama não é apenas importante para a história da comunidade negra brasileira, é, também, para que entendamos dois movimentos fundamentais para a formação social brasileira e entender para onde caminha o país. Ele está ligado tanto ao movimento abolicionista, ou seja, a luta contra a escravidão, como à formação da Republica. Neste momento, resgatar a figura de Luiz Gama, é resgatar também a esperança na construção de um país melhor, de um mundo mais justo e também da luta antirracista”.

Todos os discursos apresentados na homenagem foram fortes e com ideais libertadores, e devem ser apresentados a cada dia por mais pessoas, para que um dia possamos somente lembrar esses discursos e agradecer por não serem mais necessários. No dia em que finalmente os discursos de ódio se findarão, onde a igualdade prevista na nossa Constituição Federal será um fato, e não um objetivo a ser alcançado. Onde finalmente honraremos aos nossos antepassados que lutaram bravamente para que toda a liberdade prevista acontecesse.

Preconceito

Em pleno ano de 2015, após 133 anos da morte de um líder abolicionista, ainda se fala em preconceito, em separação de raças e classes, onde ainda se vive em um país, ou melhor, em um mundo em que pessoas diferentes, seja em raça, religião, sexualidade, ou classe econômica não são vistas como pessoas de Direito, como iguais, é um absurdo que ainda tenhamos pensamentos como se vivêssemos ainda no tempo da escravidão, onde negros são minorias em faculdades, em postos de poder, mas são maioria em favelas e presídios. Tem alguma coisa errada, e muito errada, e só por meio da luta contra o preconceito, levantando a bandeira que a muito foi levantada por Luiz Gama, é que conseguiremos avançar, conseguiremos mostrar que todos merecem os mesmos direitos e deveres, que todos têm a mesma capacidade e só precisam de uma oportunidade para mostrar isso.

A Formação econômica do país

No Brasil Colonial a escravidão maciça de negros foi a chave para alavancar o país, desde a chegada dos portugueses até o fim da escravidão os negros foram a principal mão-de-obra, e por conta deles as atividades econômicas se tornaram possíveis. Por meio da escravidão, da tortura dos povos africanos como forma de controle, eles obtiveram um papel fundamental na construção da nossa sociedade atual. Porém, ao contrário do que se prega, enaltecendo os dominadores e desconsiderando aqueles que realmente merecem reconhecimento, os negros foram os verdadeiros agentes sociais, promovendo intercambio cultural e desenvolvimento do país, apesar das agressões e escravidão.

Histórico da escravidão no Brasil

No inicio do século XVI, começo da colonização do Brasil pelos portugueses, os índios foram usados como escravos nas lavouras, porém os religiosos católicos se puseram em defesa dos índios e conseguiram acabar com sua escravidão. Os colonizadores portugueses então trouxeram os negros da África, para que fossem escravos em suas colônias. E assim se deu inicio a escravidão negra no país.

Escravidão e agricultura tropical

No começo da colonização, os índios eram usados como escravos, e com isso a etapa inicial do plantio da cana de açúcar, para a indústria açucareira, foi possível, pois por serem nativos, sabiam como plantar nas terras onde viviam. Após essa etapa inicial, foram trazidos escravos africanos, para expandir as plantações e manter um sistema de produção mais eficiente. Os negros vieram para substituir os escravos índios, que eram menos eficientes.

Escravidão e ouro

Outra atividade econômica que se utilizou da mão-de-obra escrava foi a extração de minério, em Minas Gerais, onde a busca por metais preciosos era grande, para conseguir reerguer a colônia portuguesa que a cada dia mais empobrecia.

Problema na mão-de-obra

Em meados de 1872 haviam aproximadamente 1,5 milhão de escravos no país, enquanto esse número no começo do século era de 1 milhão, foram importados mais de 500 mil escravos, chega-se a conclusão que a taxa de mortalidade era maior que a de natalidade, diferente dos Estado Unidos da América (EUA), onde a mão-de-obra também era africana. Os EUA também iniciaram o século com aproximadamente 1 milhão de escravos, e apesar deles terem importado três vezes menos que o Brasil, conseguiram ter uma força de trabalho escrava com cerca de 4 milhões, enquanto no Brasil haviam cerca de 1,5 milhão de escravos. A conclusão é que a taxa de crescimento nos EUA era grande, e que as condições de alimentação e trabalho eram melhores que aqui no país.

Abolição da escravatura

A partir da segunda metade do século XIX, ocorreu o surgimento do movimento abolicionista. A região Sul do país passou a empregar os trabalhadores assalariados, brasileiros e imigrantes estrangeiros. Na região Norte, os engenhos de açúcar foram substituídos por usina produtoras de açúcar, o que diminuiu o uso de escravos.

Em 1850 houve a extinção do tráfico de escravos, e em 1871 foi promulgada a Lei do Ventre-Livre, ou seja, os filhos de escravas que nasceram após essa promulgação tornavam-se livres.

Em 1885 a lei dos sexagenários foi promulgada, beneficiando os negros com mais de 65 anos de idade. E somente em 13 de maio de 1888, pela Lei Áurea, a liberdade total e definitiva foi concedida aos negros brasileiros.

O legado da cultura afrodescendente

Após quase 400 anos de escravidão, os africanos além de terem contribuído com a economia do país, como já foi dito, influenciou e muito a formação cultural. Os escravos trazidos eram de diversas regiões da África, de várias etnias diferentes, e cada uma delas trouxe tradições distintas, que somadas, são parte muito importante de tudo que conhecemos hoje.

Muitas palavras utilizadas por nós hoje derivam do vocabulário africano, a alimentação também tem raízes africanas, vez que as escravas cozinhavam nos engenhos, nas fazendas e etc, a comida feita por elas virou parte da nossa cultura, como por exemplo, vatapá, acarajé, pamonha, quiabo, dentre outras, e temperos, como pimenta, azeite de dendê e etc.

Além do vocabulário, e da alimentação, a música também tem muitos traços africanos, o samba, pagode, capoeira, e os instrumentos marcantes como tambor, atabaque, cuíca, berimbau, dentre outros, também foram trazidos pelos africanos no tempo da escravidão.

As religiões deles também criaram raízes no Brasil, são elas, o candomblé, a quimbanda, o catimbó e a umbanda, dentre outras.

Todas essas coisas que foram trazidas pelos escravos, ou foram criadas por eles aqui, são parte da nossa cultura, a cultura que foi denominada de afro-brasileira.

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